Uso excessivo de celular pode afetar concentração e saúde mental

Redes sociais treinam o cérebro para estímulos rápidos e podem prejudicar atenção prolongada; especialistas orientam equilíbrio

Uso excessivo de celular pode afetar concentração e saúde mental

Foto: Divulgação

O celular se tornou uma ferramenta indispensável na rotina moderna, presente no trabalho, nos estudos, no lazer e na comunicação. Mas o uso exagerado, principalmente de redes sociais com vídeos curtos e estímulos constantes, pode modificar a forma como o cérebro processa informações e afetar a capacidade de concentração, segundo especialistas.

O neurologista Pedro Levi, coordenador do Ambulatório de Cognição e Comportamento do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), explica que o cérebro possui uma capacidade de adaptação chamada neuroplasticidade, que permite mudanças conforme os hábitos e experiências vividas.

“O nosso cérebro é um órgão que tem uma incrível capacidade de se adaptar, de se moldar a situações, rotinas e hábitos. A gente chama isso de neuroplasticidade. Essa é uma qualidade que vai diminuindo ao longo do tempo. Crianças e adolescentes têm uma maior capacidade de serem plásticos, ou seja, de se moldar, adaptar e aprender situações novas do que idosos, por exemplo”, explica.

Segundo o neurologista, o consumo frequente de conteúdos rápidos nas redes sociais pode fazer com que o cérebro se acostume a períodos muito curtos de atenção.

“Quando a gente usa Instagram, TikTok, Facebook, nós estamos acostumando o nosso cérebro a se concentrar em pequenas parcelas, pequenas frações de tempo, que duram às vezes em torno de três segundos, cinco segundos ou 15 segundos. A gente faz isso dezenas de vezes por horas e, ao longo de meses e anos, estamos treinando o cérebro para esse hábito de se concentrar por pequenas parcelas de tempo”, afirma.

Esse condicionamento pode dificultar atividades que exigem atenção prolongada, como ler um livro, assistir a um filme ou acompanhar uma apresentação.

“Quando a gente precisa de uma atenção sustentada, uma concentração de um longo período, como ler um livro, assistir a uma partida de futebol, uma peça de teatro ou ir ao cinema, fica muito mais difícil do nosso cérebro se adaptar a essa nova situação. Mas isso é reversível, desde que a gente treine o contrário”, destaca Pedro Levi.

O especialista orienta que o caminho não é abandonar completamente a tecnologia, mas estabelecer um uso mais consciente.

“A partir do momento que nós mesclamos o consumo racional do telefone e das redes sociais, treinando o cérebro para não ficar apenas nessas pequenas parcelas de segundos, e passamos a fazer leituras durante uma hora ou uma hora e meia, isso vai fazendo com que o cérebro não se adapte totalmente a essa condição que foi previamente aprendida”, explica.

Entre as estratégias para reduzir o tempo de tela, o neurologista recomenda desligar notificações desnecessárias e criar uma rotina de afastamento do aparelho antes de dormir.

“Isso envolve desativar notificações para que nós não estejamos, a todo momento, sendo conduzidos a pegar o celular para ver o que veio de novo. Outra possibilidade é estabelecer uma rotina de higiene do sono, na qual uma ou duas horas antes de dormir a gente já se desapega completamente do celular”, orienta.

Para Pedro Levi, também é importante diferenciar o uso funcional do celular do uso como uma forma de escapar do tédio.

“Se eu tenho uma questão para resolver no celular, uma ligação, uma tarefa para anotar ou pagar uma conta, eu pego o celular e uso. Mas se começo a utilizar o celular como um anestésico para um momento em que estou entediado, sem nada para fazer, logicamente vou cair sempre na vala de consumir diversos vídeos por curto período de tempo.”

Quando o uso vira um problema

O especialista alerta que o celular passa a ser preocupante quando interfere na rotina e no comportamento da pessoa.

“É inevitável que um ser humano nos dias de hoje não utilize celular, porque todos os âmbitos da vida estão ligados a ele. Mas começamos a entender que existe algo patológico quando a pessoa já não consegue mais ler uma página de um livro sem consultar o celular, quando acredita que o aparelho tremeu no bolso e toda hora olha para ver se chegou alguma notícia nova, ou quando passa horas consumindo vídeos e não vê o tempo passar”, afirma.

Outro sinal de alerta é a alteração emocional causada pela falta do aparelho.

“Quando a pessoa começa a ficar muito irritada quando está sem celular, quando isso abala profundamente o comportamento e o humor, como ficar sem bateria e isso gerar uma irritação profunda, ansiedade ou raiva, são provas de que o processo do vício já tomou conta e que fazer um desmame, procurar ajuda médica, é importante para a saúde mental”, explica.

Pedro Levi também reforça que o celular não deve ser usado como uma forma de descanso mental.

“Definitivamente o uso do celular não serve para descansar a mente. Quando estamos em contato com cores, brilhos, sons, contextos e dezenas de vídeos, nosso cérebro é obrigado a processar todas essas informações, julgar, armazenar e interagir com elas.”

Segundo ele, o excesso de estímulos pode gerar fadiga mental.

“Quando a gente passa horas deitado no sofá mexendo em uma rede social, consumindo vídeos curtos, naturalmente o cérebro fica extremamente fadigado, porque a todo momento está buscando uma novidade, tentando encontrar dopamina na expectativa de que o próximo vídeo seja interessante.”

Relação entre jovens, memes e redes sociais

O psicólogo Thiago Piscicologo destaca que, no caso dos adolescentes, a família precisa compreender o significado que as redes sociais têm na construção da identidade e das relações sociais.

Para ele, o primeiro passo é substituir críticas por diálogo.

“O primeiro passo é trocar o julgamento pela curiosidade. Em vez de dizer que aquilo é bobo ou não faz sentido, os pais podem perguntar: ‘O que isso significa para vocês?’ ou ‘Por que isso ficou tão engraçado?’. Quando o adolescente percebe que não será ridicularizado, ele tende a explicar e incluir os pais nesse universo.”

Segundo Thiago, os memes e conteúdos compartilhados pelos jovens funcionam como uma forma de pertencimento.

“Não é necessário que o adulto use todas as gírias ou tente agir como um adolescente, mas é importante demonstrar interesse. Esses memes também funcionam como uma linguagem de pertencimento. Quando os pais desqualificam tudo, o jovem pode sentir que estão desqualificando também o grupo, os interesses e uma parte da identidade dele.”

O psicólogo explica que o problema não está simplesmente no tempo de uso, mas no papel que a tecnologia ocupa na vida da pessoa.

“As redes podem oferecer distração e alívio momentâneo e isso, por si só, não é necessariamente um problema. A preocupação começa quando o celular se torna praticamente a única forma que o jovem encontra para lidar com as emoções.”

Entre os sinais que merecem atenção estão irritação intensa ao interromper o acesso, uso durante a madrugada, prejuízo no sono, queda no rendimento escolar, isolamento e abandono de atividades que antes davam prazer.

“Mais importante do que contar apenas um número de horas é perceber o impacto desse uso na vida. Quando a rede deixa de ser uma atividade entre várias e passa a ocupar o lugar do descanso, das relações, dos estudos e de outras formas de lidar com as emoções, é necessário olhar com mais cuidado.”

Como criar uma relação mais saudável com a tecnologia

Thiago afirma que a solução não é retirar completamente as redes sociais, mas estabelecer limites e equilíbrio.

“É perfeitamente possível. A proposta não precisa ser retirar completamente as redes, porque elas também são espaços de comunicação, entretenimento, criatividade e convivência. O objetivo é que a pessoa utilize a tecnologia e não que seja controlada por ela.”

Entre os hábitos recomendados estão evitar o celular durante as refeições, estabelecer horários para encerrar o uso à noite, não dormir com o aparelho ao lado da cama e desligar notificações desnecessárias.

“Também é importante preservar atividades fora das telas, como esportes, convivência familiar, contato com os amigos e momentos de descanso. Essas regras funcionam melhor quando valem para toda a família.”

O psicólogo reforça que o exemplo dos adultos é fundamental.

“É difícil pedir que o adolescente largue o celular se os adultos permanecem conectados durante todo o tempo. O exemplo dos pais, o diálogo e os combinados construídos em conjunto costumam ser mais eficazes do que apenas proibições e punições.”

Para Thiago, o uso excessivo das redes pode revelar questões emocionais que precisam ser observadas.

“O problema não está simplesmente no uso das redes sociais, mas na relação que cada pessoa estabelece com elas. Muitas vezes o excesso é apenas a parte mais visível de dificuldades que envolvem ansiedade, solidão, autoestima, conflitos familiares ou dificuldades para lidar com frustrações.”

Ele destaca ainda que o acompanhamento e a escuta são fundamentais.

“É preciso escutar, compreender o que ele está comunicando e ajudar o jovem e a família a construírem novas formas de lidar com essas questões. Quanto mais cedo esse olhar acontece, maiores são as possibilidades de evitar que um hábito se transforme em sofrimento e prejuízo para toda a rotina.”

A orientação dos especialistas é que a tecnologia continue fazendo parte da vida das pessoas, mas de forma equilibrada, sem substituir relações, atividades e momentos importantes do cotidiano.

 


Maria Pereira e Marina Gabriely

Maria Pereira e Marina Gabriely

Repórter e colaborador do portal.

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