Foto: Divulgação
Uma eventual elevação para 67% da tarifa sobre a carne brasileira importada pela China poderia provocar impactos significativos na economia de Mato Grosso do Sul, especialmente na cadeia da pecuária. A avaliação é da administradora de empresas e mestre em Desenvolvimento Local em contexto de Territorialidades e Dinâmicas Socioambientais, Fabiana Biazetto, professora do curso de Ciências Contábeis da Uniderp.
Segundo a especialista, a China é atualmente o principal mercado consumidor da carne brasileira e uma tarifa mais elevada poderia encarecer o produto para os compradores chineses, reduzindo a demanda e dificultando o fluxo comercial.
“O impacto seria imediato, e muito sentido no bolso do produtor e da indústria. A China é o nosso maior comprador. E se a tarifa subir aí na casa dos 67%, a nossa carne fica mais cara, aliás, fica cara demais para eles e o comércio trava”, afirmou Fabiana.
Na avaliação da professora, uma redução nas exportações poderia levar os frigoríficos sul-mato-grossenses a diminuir o ritmo de abates diante do risco de aumento dos estoques. Entre as medidas possíveis, segundo ela, estaria até a adoção de férias coletivas em algumas empresas.
Para o pecuarista, o reflexo poderia aparecer diretamente no preço da arroba. Com menor demanda dos frigoríficos, haveria uma pressão de baixa sobre os valores pagos pelo gado, o que poderia levar produtores a postergar vendas e manter os animais por mais tempo no pasto.
“Aí, para o pecuarista, o preço da arroba do boi sofre uma pressão forte de queda e ele vai ser obrigado a segurar o gado no pasto, o que acaba esfriando os investimentos de campo”, explicou.
Impacto vai além da pecuária
A possível redução das exportações também poderia atingir empresas e trabalhadores que não atuam diretamente na produção de carne. Isso ocorre porque a cadeia pecuária movimenta uma série de atividades econômicas em Mato Grosso do Sul.
Transportadoras, fábricas de ração e suplementos, empresas de máquinas e equipamentos agrícolas e o comércio dos municípios do interior estão entre os segmentos que poderiam sentir os efeitos de uma desaceleração.
“A pecuária do Mato Grosso do Sul não funciona sozinha. Ela é um motor de várias outras atividades. Então, se o setor da carne desacelera, o transportador faz menos fretes, as fábricas de ração, de suplementos vendem menos e as lojas de máquinas agrícolas sentem também a puxada de freio”, destacou Fabiana.
O impacto poderia chegar também ao consumo das famílias. Com menor renda ou maior insegurança entre produtores e trabalhadores de frigoríficos, o movimento no comércio das cidades poderia diminuir.
Supermercados, farmácias e outros estabelecimentos locais também poderiam ser afetados por uma eventual redução do poder de compra da população.
Outro possível reflexo seria na arrecadação pública. Com menos movimentação econômica, a receita de impostos pode diminuir, reduzindo os recursos disponíveis para investimentos e serviços públicos.
Diversificação de mercados não resolveria problema no curto prazo
Para Fabiana Biazetto, buscar novos compradores para a carne brasileira é uma estratégia necessária, mas não seria suficiente para compensar rapidamente uma eventual redução das compras chinesas.
Segundo ela, nenhum outro mercado atualmente absorve o mesmo volume adquirido pela China, o que torna difícil substituir imediatamente esse fluxo comercial.
“Diversificar mercados é uma estratégia certa, claro, que o mercado já vem fazendo, mas abrir novos países e conseguir o mesmo ritmo de compra demora tempo, investimento”, afirmou.
Entre os possíveis destinos estão os Estados Unidos, países do Oriente Médio e o próprio mercado brasileiro. No entanto, a professora ressalta que ampliar esses mercados exige negociações, investimentos e tempo para estabelecer novas relações comerciais.
“A gente até consegue mandar uma parte dessa carne, por exemplo, para os Estados Unidos, para o Oriente Médio ou até focar mais no mercado interno brasileiro, mas isso não vai resolver o problema da noite para o dia”, explicou.
Na avaliação da especialista, caso a China reduza significativamente as compras em razão de uma tarifa mais alta, o setor poderia atravessar um período de pressão até encontrar novos compradores e reorganizar a cadeia produtiva.
Para Mato Grosso do Sul, onde a pecuária possui forte participação na economia, os efeitos de uma eventual retração nas exportações poderiam se espalhar por diferentes municípios e segmentos, tornando a diversificação dos mercados uma alternativa importante para reduzir a dependência de um único grande comprador.
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