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Ser pai ou mãe nunca foi uma tarefa simples, mas a exposição constante nas redes sociais acrescentou uma nova fonte de cobrança para muitas famílias: a busca por uma parentalidade considerada perfeita. Rotinas organizadas, filhos sempre felizes e famílias sem conflitos aparecem com frequência nas telas e podem fazer pais e mães compararem a própria realidade com uma versão idealizada da vida de outras pessoas.
Esse cenário pode contribuir para sentimentos de culpa, ansiedade e frustração, além de aumentar o risco de esgotamento físico e emocional. O fenômeno é conhecido como burnout parental e está relacionado à sobrecarga provocada pela rotina intensa de cuidados com os filhos.
Jonathan Felix, especialista em parentalidade nas organizações e coordenador do grupo temático de espiritualidade, saúde e bem-estar corporativo, explica que sentir cansaço faz parte da experiência de cuidar dos filhos, mas é preciso ficar atento quando o desgaste ultrapassa os limites.
“O primeiro sinal é quando a pessoa sente que nunca consegue se recompor e continua emocionalmente exaurida. Uma sensação de estar sempre no limite, perda do prazer em atividades que antes eram significativas e uma percepção de que qualquer nova demanda do filho se tornou pesada demais.”
Para o especialista, é importante diferenciar o cansaço comum do esgotamento.
“Por isso nós precisamos diferenciar estar cansado de estar esgotado. O cansaço pede descanso, o esgotamento muitas vezes revela que a forma como a vida está organizada já não está oferecendo condições suficientes para que a pessoa se recupere.”
Comparação nas redes
A exposição a conteúdos que mostram famílias aparentemente perfeitas pode aumentar a sensação de inadequação. Pais e mães passam a comparar momentos reais, marcados por dificuldades e imprevistos, com recortes cuidadosamente selecionados da rotina de outras famílias.
Jonathan Felix ressalta que a parentalidade envolve dificuldades e não deve ser apresentada como uma experiência sempre leve ou prazerosa.
“Frequentemente colocamos a nossa vida cotidiana, com suas dificuldades e contradições, em comparação com momentos selecionados da vida dos outros. Nós precisamos conseguir dizer que é possível amar profundamente um filho e ao mesmo tempo estar cansado. Reconhecer os limites também faz parte de uma parentalidade saudável.”
Além da rotina familiar, o ambiente profissional também pode influenciar diretamente a saúde mental de pais e mães. Jornadas extensas, excesso de responsabilidades e dificuldade para conciliar trabalho e família podem aumentar a sobrecarga.
Para o especialista, as empresas também precisam assumir parte da responsabilidade pela construção de ambientes mais saudáveis.
“Saúde mental não pode ser tratada apenas como responsabilidade individual. Não adianta ensinar uma pessoa a administrar o estresse se a própria organização do trabalho produz sobrecarga continuamente.”
Segundo Jonathan, discutir parentalidade saudável também significa observar as condições oferecidas aos trabalhadores que têm filhos.
“Cuidar da saúde mental de pais e de mães significa também olhar para as condições reais, porque uma parentalidade saudável também começa pelo cuidado de quem cuida.”
Diante da pressão por corresponder a padrões de perfeição, especialistas reforçam que não existe uma fórmula única para criar os filhos. Reconhecer dificuldades, pedir ajuda quando necessário e respeitar os próprios limites são atitudes que podem contribuir para uma relação mais equilibrada com a parentalidade.
A principal orientação é evitar que as redes sociais sejam usadas como parâmetro absoluto para avaliar a própria família. Afinal, por trás das imagens de rotinas perfeitas também existem cansaço, conflitos, dúvidas e desafios que nem sempre são compartilhados.
Fonte: Agência Radioweb. Produção e reportagem: Priscila Mendes.
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