Foto: 96 News
A primeira mulher a ocupar a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso do Sul (OAB-MS), Helenice Pereira Carille, relembrou momentos marcantes da advocacia brasileira, sua participação em movimentos históricos pela redemocratização do país e os desafios enfrentados pelas mulheres na profissão. As declarações foram feitas durante o primeiro episódio do podcast Calendário Jurídico, produção especial da Rádio Antena 1 Campo Grande em homenagem ao Mês da Advocacia.
Ao longo da entrevista, Helenice revisitou episódios que marcaram sua trajetória, desde a participação nas mobilizações pelas Diretas Já até a eleição para a presidência da OAB-MS, cargo que, décadas depois, continua tendo nela a única mulher a ocupá-lo.
A advogada contou que participou ativamente do movimento pelas Diretas Já, no início da década de 1980, quando ainda era conselheira da OAB.
Ela lembrou que esteve em atos realizados no Rio de Janeiro, em São Paulo e também em Campo Grande, quando a população foi às ruas para defender a volta das eleições diretas para presidente.
Segundo Helenice, mesmo após a derrota da Emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas, o movimento fortaleceu ainda mais a mobilização popular."A OAB teve seu momento de muita luta. Existia uma vontade enorme de defender aquilo que era do interesse do país, não apenas da advocacia."
Ao analisar o cenário atual da profissão, Helenice afirmou que a advocacia continua exigindo coragem, perseverança e preparo constante. "A advocacia é uma carreira para fortes, para pessoas que tenham muita coragem, que saibam digerir as derrotas e vibrar com as vitórias. Nem tudo é vitória."
Segundo ela, muitos estudantes ingressam no curso de Direito, mas poucos permanecem na advocacia depois da graduação. Para a ex-presidente da OAB, parte desse fenômeno está ligada ao crescimento da busca por concursos públicos, que oferecem maior estabilidade.
Ela ressalta, porém, que independentemente da carreira escolhida, o advogado continuará defendendo interesses da sociedade.
Helenice também falou sobre a participação feminina nos espaços de liderança. Mesmo sendo a primeira mulher a presidir a OAB de Mato Grosso do Sul, ela afirma que ainda hoje as mulheres enfrentam obstáculos para ocupar cargos de decisão."Eu sempre lutei para abrir espaço para outras colegas. O que me pergunto hoje é onde eu errei para não conseguir fazer uma sucessora."
A advogada acredita que a dupla jornada enfrentada pelas mulheres ainda representa um dos principais desafios. "A mulher tem o escritório para cuidar, a casa, os filhos e, muitas vezes, até o marido. É uma realidade complicada e talvez isso explique por que ainda temos poucas mulheres na militância da OAB."
Questionada sobre os conselhos que daria aos jovens advogados, Helenice defendeu maior participação dos profissionais dentro da Ordem. Segundo ela, muitos advogados cobram posicionamentos da instituição, mas poucos estão dispostos a participar das comissões e da construção das decisões."O advogado precisa participar da OAB. Não apenas para cobrar, mas para construir. Quem se omite acaba prestando um desserviço à instituição."
Outro tema abordado foi o avanço da inteligência artificial na advocacia. Helenice reconhece que a tecnologia facilita o trabalho dos profissionais, mas alerta que ela não substitui o conhecimento jurídico. "A inteligência artificial é uma arma. É igual um revólver: só pode usar quem sabe muito bem como funciona. Se usar mal, você se dá mal."
Ela citou casos recentes de decisões judiciais e petições elaboradas com auxílio da inteligência artificial contendo informações falsas ou referências inexistentes. Para a advogada, o maior risco não está na tecnologia em si, mas no uso indiscriminado por profissionais que deixam de estudar. "O problema é a pessoa achar que pode estudar menos porque existe inteligência artificial."
Helenice foi enfática ao afirmar que nenhum recurso tecnológico substitui o hábito da leitura. Segundo ela, o advogado precisa dominar a interpretação dos textos para representar adequadamente os interesses de seus clientes. "Quem não gosta de ler não pode ser advogado. Quem não lê não sabe escrever. Quem não sabe escrever não sabe interpretar."
Ela também demonstrou preocupação com a formação dos novos estudantes. "Hoje muitos alunos chegam ao ensino superior sem saber ler corretamente um texto. Como alguém nessas condições vai exercer a advocacia?"
Durante a entrevista, Helenice relembrou alguns processos marcantes de sua carreira, entre eles a defesa de executivos presos em uma grande investigação tributária e casos de júri popular envolvendo legítima defesa.
Ela afirmou que sempre conciliou causas de pequeno valor com processos de grande repercussão. "Sempre fui uma advogada de pequenas causas e grandes encrencas."
Ao ser questionada sobre o momento mais importante da carreira, não teve dúvidas. "Ser presidente da OAB foi meu maior orgulho profissional."
No encerramento da entrevista, Helenice disse que espera ser lembrada não apenas pelos cargos que ocupou, mas pelos princípios que procurou seguir durante toda a carreira. "A ética é fundamental. Advogado sem ética não serve. Pessoa sem ética não serve. É isso que deve nortear qualquer profissional."
Ela também destacou que o advogado exerce papel essencial na democracia."Quem defende a sociedade contra os abusos do Estado é o advogado. Seja como procurador, defensor ou advogado particular, nossa missão é proteger os direitos das pessoas."
A entrevista integra uma série especial produzida pela Rádio Antena 1 Campo Grande em homenagem ao Mês da Advocacia. Os episódios reúnem personagens que contribuíram para a construção da história da advocacia e das instituições de Mato Grosso do Sul, preservando a memória da profissão e inspirando as novas gerações de profissionais do Direito.
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