Nova tecnologia pode abrir caminho para pesquisas de vacina contra a sífilis

Proteínas artificiais desenvolvidas por pesquisadores facilitaram o estudo de estruturas da bactéria causadora da doença, mas ainda não há vacina testada nem evidência de proteção em humanos

Nova tecnologia pode abrir caminho para pesquisas de vacina contra a sífilis

Foto: Divulgação

Uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores pode ajudar a superar uma das principais dificuldades enfrentadas no desenvolvimento de uma vacina contra a sífilis. O método permite estudar com maior estabilidade proteínas presentes na membrana externa da bactéria Treponema pallidum, considerada um dos principais alvos para futuras estratégias de imunização.

Essas proteínas são importantes porque ficam expostas na superfície da bactéria e podem ser reconhecidas pelo sistema imunológico. O problema é que, quando retiradas da membrana, elas tendem a perder a estrutura ou se agrupar, o que dificulta sua produção e análise em laboratório.

Para contornar essa limitação, os cientistas desenvolveram proteínas artificiais chamadas WRAPs. Projetadas por computador, elas funcionam como uma espécie de revestimento que protege as partes das proteínas que não interagem bem com a água. Dessa forma, as estruturas conseguem permanecer solúveis e estáveis sem a utilização de detergentes.

A tecnologia foi utilizada para produzir versões solúveis de quatro proteínas da membrana externa da Treponema pallidum: TP0126, TP0479, TP0698 e TP0733.

Os pesquisadores verificaram que as estruturas mantiveram características importantes para o reconhecimento pelo sistema imunológico. Em experimentos, elas reagiram com anticorpos encontrados no sangue de coelhos que haviam sido infectados anteriormente pela bactéria.

O estudo foi publicado na revista científica Science e representa um avanço na pesquisa básica sobre a sífilis. No entanto, os resultados ainda estão longe de significar a existência de uma vacina.

Até o momento, não foi realizado teste de uma vacina em humanos e também não foi demonstrado que os antígenos produzidos pela nova tecnologia sejam capazes de proteger contra a doença.

A dificuldade de trabalhar com proteínas de membrana é um problema conhecido na biologia. Essas moléculas possuem regiões hidrofóbicas, ou seja, que repelem a água. Dentro da membrana celular, essas características são naturais, mas tornam o isolamento e a análise das proteínas muito mais complicados.

Tradicionalmente, os pesquisadores utilizam detergentes para retirar essas proteínas das membranas. O procedimento pode funcionar, mas exige processos mais complexos e, em algumas situações, pode alterar a estabilidade ou a estrutura das moléculas.

Com as WRAPs, os cientistas conseguiram manter as proteínas em solução aquosa e preservar características estruturais e funcionais. Os experimentos também indicaram estabilidade térmica e capacidade de interação com outras moléculas.

Outra etapa do trabalho utilizou microscopia crioeletrônica para determinar, em alta resolução, a estrutura de uma proteína de membrana revestida pela nova tecnologia. O resultado ajudou a confirmar que o método pode ser utilizado para estudos estruturais detalhados.

A aplicação, porém, não se limita à sífilis. A plataforma poderá ser útil em pesquisas relacionadas a vacinas, diagnósticos, medicamentos e anticorpos terapêuticos, além de facilitar a investigação de proteínas de membrana envolvidas em diferentes doenças.

No caso da sífilis, a próxima etapa será descobrir se os antígenos produzidos com a tecnologia conseguem provocar uma resposta imunológica suficientemente forte e, principalmente, uma resposta capaz de proteger contra a infecção.

Os pesquisadores também avaliam aprimorar o sistema utilizando técnicas de inteligência artificial e aprendizado profundo para tornar o desenvolvimento das proteínas artificiais mais rápido e preciso.

Assim, o trabalho abre uma possibilidade importante para a pesquisa de uma futura vacina contra a sífilis, mas ainda são necessários novos estudos antes que a tecnologia possa ser transformada em uma estratégia de prevenção disponível para a população.

Com informações G1

Maria Pereira

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