Foto: Divulgação
Em alusão ao mês da Advocacia, o 96 News recebeu a advogada e professora Silmara Domingues Araújo Amarilha, doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre, professora da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso do Sul, parecerista e autora de livros e artigos científicos. Sua produção acadêmica é marcada por pesquisas relacionadas ao afeto, cuidado, parentalidade e responsabilidade civil.
Durante a entrevista, Silmara falou sobre sua trajetória profissional, os desafios enfrentados pelas mulheres na advocacia, as transformações no Direito de Família e os impactos da inteligência artificial na área jurídica.
Ao relembrar o início da carreira, a advogada destacou que a inserção das mulheres no mercado jurídico era ainda mais difícil há cerca de três décadas. Segundo ela, havia uma associação entre o exercício da advocacia e características tradicionalmente atribuídas aos homens, como força, agressividade e uma postura mais incisiva.
Nesse cenário, a pesquisa acadêmica surgiu como uma ferramenta de qualificação profissional e de fortalecimento da atuação no mercado.
"Essa aproximação particular com a pós-graduação, o desenvolvimento do conhecimento científico, se deu como um instrumento realmente de capacitação, de conferir ao meu currículo mais musculatura e fazer com que a sociedade compreendesse o porquê me contratar seria algo interessante", afirmou Silmara.
A especialista também analisou como os estereótipos de gênero ainda podem influenciar a percepção sobre profissionais do Direito. Para ela, a transformação da sociedade ajudou a mostrar que a capacidade de um advogado ou de uma advogada não está relacionada ao tom de voz ou a uma postura agressiva, mas à qualidade dos argumentos apresentados.
"Eu acredito que a prática do Direito e o exercício da advocacia em particular não dependem do volume da sua voz, mas sim da propriedade dos seus argumentos. Com base nisso, homens e mulheres têm iguais capacidades para desenvolvê-los", destacou.
Embora as mulheres já tenham presença expressiva nas faculdades de Direito e nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Silmara explicou que ainda existem obstáculos menos visíveis no mercado profissional.
Ela classificou esse fenômeno como uma espécie de "telhado de vidro", principalmente porque, na advocacia, a contratação depende de avaliações subjetivas e da imagem construída pelo profissional perante a sociedade.
Na magistratura, por exemplo, existem critérios objetivos para ingresso na carreira, como provas e etapas de seleção. Na advocacia, por outro lado, a construção da reputação profissional pode sofrer influência de percepções e preconceitos.
"Então, a carga de subjetividade é muito maior e dentro dessa subjetividade que muitas vezes estão inseridos esses prejuízos, esses preconceitos de que uma mulher não seria tão capaz ou igualmente capaz de um homem para desenvolver uma tese ou fazer o exercício da sua profissão", explicou.
Outro tema central da entrevista foi a relação entre afeto, cuidado e parentalidade. Pesquisadora do assunto, Silmara explicou que seus estudos procuram compreender os vínculos familiares para além da dimensão exclusivamente biológica.
Para ela, a parentalidade também é construída a partir das relações de cuidado desenvolvidas ao longo da vida.
"Afeto não é sinônimo de amor. Afeto é sinônimo de repercussão no outro. Às vezes essa repercussão é positiva, às vezes nem tanto. Então, na verdade, no campo familiar, o que qualifica mais o afeto é chamado o cuidado e não necessariamente uma postura amorosa", explicou.
A discussão ganha importância especialmente em conflitos envolvendo guarda, convivência e separação de casais. A advogada afirmou que a criança não pode ser transformada em instrumento de disputa entre adultos.
Em sua experiência na área de Direito de Família, ela afirmou considerar os interesses das crianças uma prioridade e defendeu medidas preventivas para evitar que os conflitos dos pais provoquem consequências ainda maiores para os filhos.
Silmara também destacou a importância das chamadas escolas de parentalidade, que oferecem orientação a pais e mães sobre como lidar com conflitos familiares e preservar o desenvolvimento dos filhos.
Para a advogada, a educação pode ter papel decisivo na prevenção de situações que acabam chegando ao Judiciário.
"Acredito muito no poder da educação. E acho que a educação parental nesse sentido funciona realmente como um diferenciador", afirmou.
Durante a entrevista, os apresentadores também questionaram se o Judiciário poderia obrigar um pai ou uma mãe a amar o próprio filho. Silmara explicou que o amor não pode ser imposto por uma decisão judicial, mas o Poder Judiciário pode determinar medidas relacionadas ao cuidado e à proteção da criança.
Entre as possibilidades estão a adoção de práticas de cuidado e, quando necessário, a submissão a tratamentos psicológicos ou outras intervenções capazes de contribuir para um ambiente familiar mais saudável.
A discussão também chegou ao abandono afetivo. Segundo Silmara, o tema deve ser compreendido a partir da responsabilidade parental e não apenas da existência ou ausência de sentimentos.
Ela explicou que o Direito de Família trabalha, ao mesmo tempo, com a liberdade de planejamento familiar e com a responsabilidade decorrente da parentalidade.
"Você é livre para ser pai e mãe, mas é responsável também pela sua própria parentalidade", afirmou.
Outro assunto abordado foi o avanço da inteligência artificial no Direito. Para Silmara, as novas tecnologias já funcionam como ferramentas importantes para facilitar o trabalho de profissionais e escritórios, mas não devem substituir a dimensão humana da advocacia e da magistratura.
A especialista destacou que atividades jurídicas envolvem comunicação, interpretação, argumentação e contato com pessoas, aspectos que, segundo ela, não podem ser integralmente transferidos para uma ferramenta tecnológica.
"A carga humana, seja da advocacia, seja da magistratura, jamais será substituída. Nós temos aí uma atividade que deve se colocar de uma maneira muito próxima ao seu interlocutor e ao seu destinatário final, que é o jurisdicionado", afirmou.
Para Silmara, a inteligência artificial deve ser encarada como instrumento de apoio e não como substituta da capacidade humana de compreender situações complexas, discutir argumentos e se fazer entender.
A entrevista fez parte da programação especial do 96 News em homenagem ao mês da Advocacia. O bate-papo teve continuidade no canal do programa no YouTube e também será transformado em um episódio do podcast Caderno Jurídico.
A conversa destacou não apenas os desafios históricos enfrentados pelas mulheres na profissão, mas também as transformações do Direito de Família e a necessidade de conciliar conhecimento técnico, responsabilidade e sensibilidade humana no exercício da advocacia.
Comentários (0)
Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.
EntrarNão há comentários nesta matéria. Seja o primeiro a comentar!